terça-feira, 11 de dezembro de 2007

Um novo Antônio Conselheiro

Engana-se quem vive afirmando que a História não se repete. Repete sim, com graus diferentes de intensidade, motivações e outros componentes.
Melhor exemplo atualmente é a greve de fome do bispo Cappio contra o projeto da transposição do Rio São Francisco. Não sou especialista no assunto, mas em seminário sobre o tema no ano passado na Assembléia, ajudei a dar vaia num cara do governo federal que esteve em BH, nem me lembro o nome (deve ser alguém muito importante!).
Tomei uma posição muito clara contrária à transposição do rio, depois de ler um artigo de um pesquisador da Fundação Joaquim Nabuco, de Recife, mostrando por a+b os equívocos do projeto. Se o cara que é lá do sertãozão brabo é contra, imagina eu!
Mas agora inês é morta. As máquinas já estão lá cavoucando tudo, num desfecho de autoritarismo jamais visto neste País. Mas o bispo Cappio continua resistindo, e faz sua cruzada solitária. Passa fome para que os ribeirinhos não venham a passá-la décadas vindouras. O jornalista Márcio Metzker diz que é o novo Antônio Conselheiro.
Mas o artigo que mais me chamou a atenção recentemente foi do Raul Paixão, a quem pedi licença para reproduzir aqui neste pequeno espaço de idéias.
Raul, que se define como "eu sou eu mesmo, não mais", foi da direção nacional do PCB e do PPS e hoje "livre atirador".

Aí vai:

"Quem passou pelo Setor Público conhece bem o termo 'obra de empreiteira'. A transposição do Rio São Francisco é uma clara 'obra de empreiteira'.
Parto do suposto de que as pessoas envolvidas não são idiotas; logo, posso deduzir que todas elas têm ciência e consciência de que a transposição é uma 'obra de empreiteira'.
À parte o dano irreparável ao São Francisco – já foi chamado de Rio da Unidade Nacional – o que mais me chama a atenção na parte técnica é o seguinte:

Para chegar ao seu “porto de destino”, a água precisa subir 500 metros de altura – repito o pleonasmo: subir 500 metros na altura, e não em sua extensão linear e horizontal – através de “n” estações de bombeamento. Acreditem!

Não existe atividade que seja economicamente viável com o preço a que a água chegará a seu “porto de destino” – investimento fixo na faixa dos US$2,5 bilhões a ser amortizado ao longo do tempo e o custo da energia, claro. Haja rentabilidade!... A não ser que – ah!, já ia me esquecendo – nós todos banquemos a rentabilidade via subsídios pesados. Não faltará um político calhorda para criar um projeto com essa finalidade; e aqui me refiro ao Legislativo, Executivo e Judiciário.

Não me venham dizer que a transposição atenderá o povão do árido e do semi-árido nordestino; isto é conversa fiada para boi dormir ou para inglês ver. Para esta finalidade, estudos técnicos demonstram que existem alternativas mais inteligentes e baratas. Contudo, essas alternativas não chegam a ser “obras de empreiteira”. E mais: não falta água no árido e no semi-árido nordestino, é bom que fique claro.

Precisamos pôr a boca no mundo e gritar: abaixo a “obra de empreiteira” que é a transposição do Rio São Francisco e cadeia para seus patrocinadores.

Até que enfim, estou de acordo com a Igreja Cristã Católica, pelo menos, com parte dela: longa vida ao Bispo Luiz Flávio Cappio combatendo a transposição.

Saudações indignadas de um sertanejo do Vale do Jequitinhonha que vê desde criança, quando lá nadava, seus rios – Araçuaí e Jequitinhonha – secarem devagarzinho.


Raul Paixão

10/dez/2007"

2 comentários:

flavia disse...

é isso aí adriana! essa "obra de empreteira" é realmente um absurdo! bjs

Anônimo disse...

Ei Adriana! Estou contigo e não abro. Por acaso presenciei a tal vaia. Foi impagável! hê, hê, hê