quarta-feira, 30 de abril de 2008

Mineração no Topo do Mundo

Meu sobrinho de 11 anos, Henrique, em 2006,
no Topo do Mundo, antes do início do fim




Recentemente acompanhei um debate sobre um projeto de lei que anexa a Serra da Calçada ao Parque do Rola Moça. O debate incluiu ainda muitas críticas a outro projeto que quer passar o facão em parte da área desse parque.
Já havia escrito aqui sobre os dois casos e até colocado a poesia do Mário de Andrade. "Serra do Rola Moça".
Me impressionei com a mobilização sobre o caso. Primeiro de mais de 1.500 pessoas no alto da Serra da Moeda, perto do restaurante Topo do Mundo, em um glorioso abraço de proteção àquele pequeno canto de mundo, lindo, lindo, frágil, frágil, diante das garras abútreas das mineradoras.
Depois me impressionei com a audiência pública que reuniu ambientalistas, moradores da região do Barreiro, frades franciscanos e alunos de escolas. Nem tudo é desesperança.
Ainda bem que temos o Ministério Público sempre atento. Foi sua ação que impediu que a MBR continuasse a fazer prospecção ali na Serra da Moeda, furando mais de 30 buracos, com até 200 metros de profundidade.
Não há lençol freático que resista a isso, e, conseqüentemente, mananciais.
E do Rola Moça vem o abastecimento de água de uma boa parte de Belo Horizonte, Brumadinho e Nova Lima.
Mas inacreditavelmente, o prefeito de Nova Lima autorizou mais construção de condomínios naquela região do Topo do Mundo.
Triste poder público este que por causa de umas migalhas de impostos das mineradoras, entrega o futuro de toda uma população a um ilusório desenvolvimento, onde o que se adivinha é a escassez completa de água potável.

terça-feira, 29 de abril de 2008

Ainda os cinco a zero

E como já tem gente dizendo que estou sem assunto, esta é a última postagem sobre o Atlético, mesmo sabendo que na noite dessa quarta para quinta certamente haverá bagunça de novo na sede.
Mas não vou falar mais nada, a menos que a PM solte bomba de novo lá em Lourdes.
Saí ontem para ver o que era aquele festival de sirenes e vi a porta do Atlético repleta dos torcedores da Galoucura, de charanga e tudo.
Como estivessem insultando muito o Ziza Valadares, a polícia foi chamada.
Acabei pegando um xerox de jornal fartamente distribuído para os passantes, com uma notícia sobre a condenação do Valadares pelo Tribunal de Contas da União. Parece que ele terá de pagar uma multa.
Coisas de quando ele esteve à frente da CBTU e contratou empresa sem licitação. Mas a condenação é uma mixaria. Só R$ 6 mil.
Mas aí um colega me disse que a Galoucura tem um ranço mesmo com o homem do bigode, porque ele cortou umas mordomias da torcida organizada, como ingressos gratuitos para o Brasil todo e tal. Corte por corte, a moçada agora quer o bigode!
Os dois estão errados e eu quero mais é que o time volte a ser o timão mineiro, sem estas exibições vergonhosas e sem a venda de ingressos na minha porta.
Acho que vou montar uma empresa de organizar venda descentralizada de ingressos e pedir o Ziza para me contratar sem licitação.
Que tal?

segunda-feira, 28 de abril de 2008

Também não precisava de cinco

Claro que roguei praga no Atlético!
Que morresse, que caísse pra terceira e tal.
Mas levar de cinco do Cruziero, aí nem eu que estou de mal com a torcida pedi.
Contudo, em uma coisa eu e a massa atleticana, que me azucrina no dia da venda dos ingressos, estamos de acordo. Esse Ziza Valadares precisa tomar vergonha na cara ou vamos arrancar aquele bigode fio por fio.
Onde já se viu apanhar, literalmente, do Cruzeiro dessa forma vergonhosa?
Por isso que hoje, com a Galoucura aqui na minha porta berrando insultos pro presidente do clube, não vou me chatear.
Deixem eles xingarem palavrões.
Deixem eles pedirem a cabeça do Ziza.
Deixem eles chamarem o homem de mentiroso. Que prometeu um título para a torcida e coisa tal.
Hoje eu apóio o furdúncio, desde que não passe das 10 da noite, é claro, afinal não sou tão magnânima assim!
E que o Ziza seja corrido do Galo, quem sabe o próximo presidente seja mais profissional e monte um time de verdade e aprenda a organizar um espetáculo digno de um Atlético e Cruzeiro.
E agora que a polícia chegou, de sirene ligada e tudo, vou lá ver o que se passa.

quinta-feira, 24 de abril de 2008

O amadorismo do Atlético e a Tv Record

Pela manhã, dei entrevista para a TV Record, na porta da minha casa. O assunto, claro, a bagunça da torcida atleticana na sede do clube, em Lourdes.
As Tvs adoram vir com aquelas pautas prontas - mostrar a alegria dos torcedores, as filas para comprar ingressos, porque os atleticanos são fiéis e muito apaixonados, e aquela baboseira toda, que se repete infinitamente.
Mas hoje a menina da Record não teve jeito: abordei-a e disse: "você devia entrevistar os moradores para ver o que eles acham disso". E lá estava eu, microfone na cara, rodeada de torcedores, e metendo o pau.
Falei, como já disse várias vezes aqui (só em março foram duas), das brigas, gritaria, sujeira, desrespeito com os moradores. Tudo isso para comprar ingresso de um jogo que só acontece no domingo. A venda começa na quinta, às 9 horas e a torcida vem para a porta na quarta, lá pelas 9, 10 horas da noite. E aí, já viu...
Mas ontem a coisa pegou fogo. Claro, alguns mais exaltados quebraram uns vidros da sede, o que eu achei bem feito.
Aí a polícia interviu: foi um festival de sirenes e bombas de efeito moral a noite toda. Às 3 horas da madrugada ouvi aquele estrondo. Era a última bomba jogada pela PM.
Engraçado, é que de outras vezes os torcedores incomodavam os prédios vizinhos, xingando porteiros e moradores, jogando garrafas nas garagens e jardins. Mas a PM nunca fez nada. Ficava só de longe, olhando.
Mas quando o patrimônio do clube foi atingido, bem aí foi outra estória.
Garantir a segurança do cidadão, como é de seu dever, a PM não faz. Mas garantir patrimônio de um ente particular, é na hora.
E a diretoria do Atlético continua com total desrespeito aos moradores e aos seus torcedores. Moradores já cansaram de fazer abaixo assinado para mudar o esquema de venda de ingressos. Mas, olimpicamente, a diretoria nos ignorou.
Quero ver até quando vai ignorar a torcida, que já fez um protesto recente contra a diretoria e agora quebrou o patrimônio do próprio time. E em vez de resolver o problema, a diretoria chama a polícia.
É difícil demais descentralizar as vendas? É difícil demais vender só no Mineirão? Ou em lojas de artigos esportivos? Ou em shoppings nas principais regiões da cidade (Barreiro, Venda Nova, etc)?
Fico imaginando como seria a venda de ingressos de um evento como o Pop Rock, em apenas dois dias e em um único lugar.
Por que o Atlético não deixa de ser amador e contrata uma empresa de produção de eventos, já que não consegue solucionar o arroz com feijão do seu metier?
Por aí a gente vê por que o clube não consegue entrar num único campeonato mais, a não ser com este desempenho pífio e desprezível!
Mas como disse um colega, "o Atlético está ali há mais de 30 anos, os vizinhos que se mudem", vou acabar tendo de me mudar.
E essa idéia me fez pensar que sou retirante em minha própria cidade: primeiro fugi da Nova Gameleira, tocada pela construção do Ceresp; depois fugi do Prado/Calafate, pela iminência da construção da nova rodoviária; e agora, bem agora é a torcida do Atlético. E nisso o Fernando tem razão: eu é que sou a intrusa.

quarta-feira, 23 de abril de 2008

Chico se mudou definitivamente


Duas coisas que escrevi aqui neste pedaço de mundo e que tiveram um desfecho triste: o apego aos nossos bichos de estimação, que se transformam em nossos parentes e a dor que é quando eles adoecem ou morrem (minha cooker Nicole, adoeceu em setembro passado, diabetes, ficou cega este ano e na semana passada morreu, depois de uma operação). E a transferência do macaco prego Chico, de Uberaba.
Chico morreu anteontem.
Em primeiro de novembro do ano passado fiz um post de desagravo ao Chico, que ia ser transferido da Mata do Ipê, onde nasceu e vivia, para outro lugar. O motivo era cômico, se não fosse absurdo: o bichinho estava incomodando os visitantes do parque, com roubos, agressões e bebedeiras.
Na época escrevi que o Chico devia ir no bar da esquina e pedir uns tragos de cachaça, só assim para se entender como ele tomava porres. Para roubar celulares, eu imagino que ele encostava um 38 no visitante e gritava: "passa o telemóvel!" (vai que o Chico era descendente de português).
As agressões que as "autoridades" disseram ser mordidas, deviam acontecer assim: o Chico passava uma carreira no de cujus e lhe mordia os calcanhares, afinal pelo seu tamanho, só poderia alcançar esta parte do corpo, mesmo que de uma criança, e ainda gritava "toma distraído!"
Pois bem, os problemas das autoridades acabaram-se: o Chico morreu. E tendo convulsões, o que leva a crer que não foi de morte natural.
Na minha opinião, o Chico morreu de melancolia, banzo, por ter sido expulso de sua terrinha natal, onde ele conhecia tudo, cada folhinha, cada minhoca e inseto, mandado para a distante Araxá, lá onde viveu Dona Beja.
Ou então as águas sulfurosas da famosa estância hidromineral não lhe caíram bem, apesar de serem ótimas para a pele.
Antes Chico tivesse continuado na cachaça.
Como disse da outra vez: os humanos continuam dando sinais de irracionalidade.

terça-feira, 22 de abril de 2008

O padre voador

O padre Ademir de Carli, de Santa Catarina, que tentou voar com uns balões de gás hélio amarrados no corpo e desapareceu pouco depois de decolar e ainda não foi encontrado, não chega a ser original.
A imprensa começou a chamá-lo de "padre voador".
Bem, padre voador foi a alcunha que o padre Bartolomeu de Gusmão, jesuíta brasileiro que se ordenou em Coimbra, recebeu por seus inventos, principalmente na área de aeronavegação.
Já por volta de 1700, Bartolomeu de Gusmão passou a dedicar-se exclusivamente à construção de uma espécie de balão. Recebeu ajuda do monarca português D. João V e fez várias tentativas de vôo.
A engenhoca foi batizado de Passarola e a história foi imortalizada por José Saramago, no "Memorial do Convento"

quarta-feira, 16 de abril de 2008

Ainda a imprensa

Não sei mais em quê ou quem acreditar. O Roberto Cabrini estava ou não com cocaína?
O Fábio Assunção estava ou não comprando drogas (era maconha ou cocaína?) no apart de São Paulo?
Se Cabrini estava com o bagulho, por que não foi indiciado por tráfico? Afinal dez papelotes não são pouca coisa.
Se não estava, então quem armou pra cima dele? Será aberto inquérito para apurar a armação?
E o Fábio Assunção, se estava comprando, por que não foi preso?
Perguntas, perguntas, que os "noticiários" não respondem.
Aqui em Belo Horizonte, um jornalista foi acusado de ter matado a esposa em 2000.
Ele disse à época que tinha sido armação da polícia, insatisfeita com uma série de reportagens que ele escrevia sobre a corrupção naquela instituição.
O inquérito foi um festival de incompetência, com falta de provas, testemunhas importantes ignoradas, daí que depois de um calvário de quatro anos, nosso colega foi inocentado no 1º Tribunal do Júri.
Pelo menos a dolorosa experiência lhe valeu a venda feito água de um livro que acabara de lançar, Distrito Zero, quando foi acusado do crime, se se pode considerar isso um consolo.

terça-feira, 15 de abril de 2008

Isabella Nardoni vira reality show

Mais uma vez a cobertura da mídia de um fato de extrema comoção social - a morte da menina Isabella Nardoni - vira espetáculo.
Entra década, sai década, entra caso, sai caso e o comportamento é o mesmo. Já não basta noticiar o fato. É preciso criar/inventar seus desdobramentos.
Já não se faz suíte - que no jargão jornalístico significa dar seqüência à notícia. Faz-se espetáculo. E espetáculo deprimente, como o que ora se presencia com o caso Nardoni.
Mas há menos de um mês era o caso da menina torturada em Goiânia, suplantado por um ibope melhor. Onde está o desdobramento daquele processo policial? A "empresária" - personagem criado pelos telejornais para se referir à mulher que adotou informalmente a menina -, continua presa? Já tem condenação?
Mas isso não importa, porque a morte de Isabella é a mais nova comoção. E a imprensa se esmera em dar seu show, pulando muros, plantando-se na frente da casa da família, ouvindo garçons, porteiros, vizinhos, cachorro e papagaio e mais um festival de besteiras de corar qualquer "foca" (outro jargão, me perdoem).
Como se não bastassem os Datenas, Marcelos, dizendo do pai da menina: "olha ali o indivíduo. Olha ele de bermuda, de boné". E a gente olhando, mas ainda assim precisando da descrição dos "comunicadores", senão não seríamos capazes de formar nossos próprios conceitos.
Como se não bastasse tudo isso, vem a Ana Maria Braga e fica ao vivo, 8 horas da manhã, falando e entrevistando sobre a morte da infeliz criança.
Infelizes de nós que vemos este degradante tratamento da desgraça e dores alheias. A Braga conversando com o produtor do jornalismo da TV para saber como seria a cobertura da emissora naquele dia. E depois, no dia seguinte, entrevistando o repórter, para ver como e onde ele iria ficar.
Só falta entrevistar o diagramador do jornal impresso para ver como ele desenhará a página com a notícia.
Vemos porque temos poucas opções de escapar da "cobertura", verdadeiro reality show da televisão brasileira, comercial e de cabo, indistintamente.
E além dessa lavagem cerebral, temos também uma pobreza de informação assustadora.
Mas, infelizmente, a cobertura jornalística virou mesmo um espetáculo, porque alguém chamado "mercado" determinou que o povo gosta mesmo é de big brother
E tome vizinhos descrevendo gritos e choros.
Sou mais o Gritos e Sussurros de Bergman.

domingo, 13 de abril de 2008

E a tecnologia me deixou na mão

Bem, fiz uns posts abaixo e queria ilustrá-los com umas fotos. Tirei umas da estrada de Cataguases, que ficaram muito bonitas. Fiz no celular, um Motorola Z não sei o quê, que tem uma câmara de 2 megapixels.
Bem, daí para o computador é só tirar o chip, colocar num adaptador com entrada USB e pronto!
Foi assim que fiz as fotos de Uberaba e Uberlândia, que para celular e internet estavam até muito boas.
Mas dessa vez falhou. As fotos não descarregaram de jeito nenhum. Nem com um cabo que também veio com o telefone, que por sinal ganhei da Telemig no final do ano, com o compromisso de me "fidelizar" (palavra do telemarketing dela) por 12 meses. Como se eu precisasse disso, 12 anos depois de "fidelidade" à Telemig.
Dessa forma vou ficar devendo as fotos lindas da Serra da Mantiqueira, com um céu escandalosamente azul. Prometo que só viajo agora com a minha câmara Sony, que já manejo bem e não com esses celulares descartáveis, que, com apenas cinco meses de uso, já começam a sofrer tudo quanto é tipo de piripaco.
ô preguiça dessas geringonças!

sábado, 12 de abril de 2008

Ainda as cadeias do Estado

Não foram só as cadeias de Ubá e Cataguases que me levaram a algumas reflexões. Visitei também a de Frutal, no Triângulo mineiro.
Embora em condição um pouco melhorzinha que as outras duas, ainda guarda aquela imagem de curral, de masmorra. Lendo outras matérias sobre cadeias, só fica a impressão: o sistema todo está falido.
Aliás, a impressão é mais ampla: não é só o sistema penitenciário, mas todo o estado está falido. Os problemas no atendimento de saúde à população de baixa renda, mostrados diariamente pelas televisões. Basta acompanhar, a escalada da dengue.
A degradação da educação, também para a população carente, está aí para ser conferida a qualquer momento.
Se se não se faz parte da classe que pode pagar com facilidade, ou daquela que a duras penas também ainda paga a saúde e educação particulares, o resto é o fracasso.
Daí não se poder ignorar a pergunta: para que serve o estado?
Se o estado não consegue garantir segurança, saúde e educação, pelos quais pagamos, para que precisamos dele afinal?
Não seria a hora de revermos os termos do contrato que fizemos quando saímos da fase do "o homem é o lobo do homem" e criamos o estado?
Vai chegar um momento que todos vão descobrir que não vale mais a pena termos o estado só para que alguns se locupletem, com cartões corporativos ou não.

sexta-feira, 11 de abril de 2008

Veja a beleza da estrada

Um acidente na estrada, onde um caminhão tanque pegou fogo, interrompendo o tráfego por mais de cinco horas, me levou a pensar: por que as pessoas correm tanto? Por que não curtem a beleza das rodovias?
Saindo de Ubá, na MG 265, até chegar ao entroncamento da BR-040, próximo a Barbacena, há um trecho magnífico da estrada. Até chegar a Cataguases, a rodovia é margeada por um verde intenso e a Serra da Mantiqueira, que oferece uma visão privilegiada. Por quilômetros e quilômetros é possível ver a serra que acompanha o motorista em todas as retas e curvas. Uma serra verdejante, viva, com um azul ao fundo, horizonte inconfundível dos dias de abril.
E entre um povoado e outro, umas casas encarapitadas nos morros que me levam a pensar: como foram parar ali? Como se faz para chegar lá?
Situação que nem um grande amor, como disse uma companheira de viagem, me levaria a viver em um lugar tão inóspito. É um pedaço de Santa Bárbara do Tugúrio.
Mas isso foi na ida para Ubá, porque na volta, depois que passamos por Rio Pomba, um acidente com o caminhão nos fez dar meia volta e ir até Juiz de Fora, onde o prefeito foi preso por roubar do FPM, e aumentar nossa viagem em mais de 120 quilômetros.

quinta-feira, 10 de abril de 2008

Ubá, Cataguases, cadeias

A profissão nos leva, às vezes, a situações, que por escolha própria, não gostaríamos de vivenciar. É o caso da visita às cadeias de Ubá e Cataguases, que fiz hoje.
Dá para entender alguns conceitos teóricos como degradação e outros nem tanto, como inferno e masmorras, depois de uma andada rápida por um corredor estreito, fedido, escuro.
Assim são as cadeias públicas de Ubá e Cataguases, na Zona da Mata.
Debaixo de um calor insuportável, com uma umidade de floresta tropical, que faz o suor escorrer incontrolável por todo o corpo, grudando roupas, cabelo, pensamentos, vai se vendo aqueles homens e mulheres atrás das grades, desesperança de uma humanidade perdida.
Páro do lado de fora da cadeia de Cataguases. Simplesmente não consigo acompanhar a visita. Não por problemas filosóficos, mas físicos mesmo. Saio porta afora pingando suor por todos os lados, morta de sede. Penso como é possível aos presos agüentar aquilo.
Na cadeia de Ubá, depois de ver algumas celas, páro numa sala que tem na entrada. Sento-me em uma cadeira capenga, sem forro, rasgada, dessas que os moradores de rua jogam fora, porque já não têm qualquer serventia.
Corro o olhar pelo resto dos "móveis": uma escrivaninha lascada, torta. Mais uma cadeia sem forro, lascada e outra "mesa" alquebrada. Pergunto para o escrivão para que serve aquela sala: "É para atender algum advogado que vai soltar um preso, ou algum familiar, ou qualquer coisa".
Passeio o olhar naquilo e entendo por que não sobra dinheiro para instalações decentes: alguns prefeitos têm de roubar do FPM, ou de outros fundos, para ter dez, doze carros, um milhão de reais em casa e armas, vá lá se saber para quê.

segunda-feira, 7 de abril de 2008

Arquitetando informações para todos

Mais do que aprender arquitetura da informação em um fim de semana, um curso sobre o tema me ensinou um pouco mais sobre manter a mente aberta.
Gosto de conhecer experiências novas, idéias idem. E estes cursos costumam ser plenos de gente jovem, outros nem tanto, como eu, mas que estamos sempre com uma curiosidade infinita para aprender.
Para instigar nossa mente, deixá-la perplexa, cutucar a imaginação, o Daniel Diniz, professor do curso de Arquitetura da Informação, passou um vídeo sobre tecnologias de navegação para cegos, os obstáculos que eles encontram para navegar, quase tão intransponíveis como os do dia a dia das cidades, e as soluções simples, se se quiser realmente democratizar este mundo que nasceu sob o signo da socialização.
Uma internauta cega vai falando de suas dificuldades, principalmente com bancos, cujos sígnos de acesso seu programa de leitura não consegue decifrar, e outro, também cego, vai indicando as soluções para superação dessa ou daquela dificuldade.
Achei fantástico o vídeo e adorei a cutucada.
Nunca como agora achei perfeita a máximna "há muito mais sobre o céu e a terra do que supõe a nossa vã filosofia".
Preocupados em distribuir a informação nos sites e em fazer tudo corretamente, não nos passa pela cabeça os públicos especiais: cegos, portadores de deficiências de membros superiores (mãos e braços), crianças, adolescentes, velhos.
E me lembrei da foto do Stephen Hawking ("O universo numa casca de noz", entre outros tantos)aprisionado a uma cadeira de rodas, inteiramente imobilizado, mas totalmente lúcido, com uma mente a milhões de anos luz à frente das nossas, usando o computador com os olhos.
E me torno esperançada: de que haverá sempre gente pensando à nossa frente, olhando o mundo com outro olhar, o olhar dos menos, dos deficientes, dos loucos, dos desvairados.
E tenho certeza de que é essa gente que faz o mundo caminhar e que torna nossa vida mais confortável nos pequenos detalhes do nosso cotidiano.

domingo, 6 de abril de 2008

Acredito em redes de ajuda

Acredito em redes de ajuda. Grupos que se vão formando, muitas vezes aleatoriamente, em função de um objetivo qualquer. Pode ser para ajudar numa operação médica cara, num transplante, para encontrar uma criança desaparecida, contra alguma mudança ou obra de governos títeres.
Muita gente recebe isso por email e deleta, com raiva de receber mais uma "corrente".
Separando estas, que realmente enchem o saco, gosto e acredito nas redes que se organizam socialmente. Já participei de inúmeras, como a Liga contra o Trauma, Doação de Medula, etc.
Exemplo de redes de ajuda, é o grupo criado na internet (yahoo grupos) para lutar contra a implantação da rodoviária no bairro Calafate em Belo Horizonte.
Fiz alguns artigos sobre o assunto, como ex-moradora do Prado/Calafate, e entrei com todo o entusiasmo nas campanhas dos moradores.
Contribuo como posso: escrevendo.
Desde que fui adicionada ao grupo, tenho recebido e-mails da Eliane Torquato, Vanessa Freitas, pessoas que não conheço, com quem nunca troquei uma palavra, mas que temos uma luta comum.
As redes sociais são o que há de moderno em mobilização social. E com a ajuda da internet, então, é o melhor dos mundos.
E como gosto muito de uma campanha, estou sempre em defesa de algo, uma colega minha já me nomeou presidente da associação comunitária da Portelinha (pra quem não sabe, a favela da novela das 8 da Globo, que além de toda a chatice e implausibilidade, ainda é politicamente incorreta, chamando o tal local de "favela" ao invés de "vila", como manda o figurino sociológico).
A turma contra a rodoviária no Calafate está ativa, participando de todas as reuniões sobre o tema, e já prepara uma ofensiva mais séria, que são as ações populares contra a prefeitura.
E viva a consciência política e social!

terça-feira, 1 de abril de 2008

Crianças que caem. Crianças que são torturadas

Não sei o que é mais macabro, se é que se pode identificar algum ponto de intercessão entre os dois fatos: crianças que caem de prédios em São Paulo, que são torturadas em Goiânia, ou a epidemia de dengue no Rio, esta doença boba, que continua a matar, enquanto o prefeito da cidade reza para o Senhor do Bonfim.
A criança que caiu jogada da janela (para isso inventaram a palavra defenestrar, que o eufemismo lingüístico nos levou a adotar em outro sentido, mais brando e conotativamente) nos deixa pasmos.
O que leva uma pessoa - sejam pais, parentes, assaltantes, babás, mães adotivas-, a cometer desatinos como este? Creio que nem a psicoliteratura é capaz de dizer.
E o que faz uma autoridade eleita para comandar uma cidade, que recebe para isso, que tem um mundo de benesses por causa do cargo que ocupa, a deixar uma doença típica da Idade Média a se alastrar e a dizimar, sobretudo crianças?
E ainda por cima declarar nas tvs que "rezou para o Senhor do Bonfim levar o mosquito da dengue para o mar"?
Será que alguém disse para ele que quem leva o mosquito para longe não é o Senhor, ou qualquer outro santo, mas sim uma política de saúde correta e séria?
Que não adianta verba atrás de verba, se não há responsabilidade com seu uso? Que privilegie o saneamento básico, políticas de combate à miséria, antes de qualquer atendimento de urgência?
É aceitável, no terceiro milênio após Cristo, conviver e morrer de uma doença que é típica da miséria dos séculos medievais?
E entre crianças que caem e são torturadas e crianças que morrem de dengue está o imponderável, o insondável da mente humana. E entre ambos está uma Justiça que não dá respostas para nossos estranhamentos.

segunda-feira, 31 de março de 2008

Mineroduto e Conceição do Mato Dentro

E para comprovar o que já estamos dizendo desde o ano passado, sobre a "unanimidade" que a MMX quer enfiar goela abaixo da população das cidades atingidas pelo empreendimento Minas/Rio, a gente de Conceição do Mato Dentro já conta com um fórum de debates para acompanhar e fiscalizar o "troço". O endereço do grupo foi deixado no "comentários" da postagem sobre o Rio das Velhas. Convido os que visitaram pela primeira vez este canto do planeta a lerem as postagens antigas sobre o mineroduto, do ano passado, e ver também algumas fotos no pé da página. Obrigada à Flávia Costa e aqui fica meu convite para que o fórum use este pedaço de mundo para deixar seu recado. Não sou de Conceição, mas amo aquela região, que freqüentei por longo tempo, sobretudo Serro e Santo Antônio do Itambé.
Endereço do fórum:

ForumsustentavelCMD@yahoogrupos.com.br

quarta-feira, 26 de março de 2008

Mineroduto em debate sobre Rio das Velhas

O debate era sobre o Meta 2010, projeto que pretende revitalizar o Rio das Velhas, tornando-o apto para a pesca, navegação e lazer até aquele ano. Mas bem no finalzinho das apresentações, do encontro na Assembléia mineira, surge uma pergunta instigante: como falar em nadar, pescar e navegar no Velhas, se já se prepara a morte de outros rios, como o Peixe, tributário da bacia do Rio Doce? Na bacia será implantado o mais novo projeto de mineração em Minas, próximo às cidades de Conceição do Mato Dentro, Alvorada de Minas, Serro, dentro do complexo do Espinhaço, declarado pela Unesco, patrimônio da humanidade.
Gente do Projeto Manuelzão, que engendrou o Meta 2010, teve que concordar: a mineração mudou pouco desde o século XIX. A tecnologia é praticamente a mesma, apesar de umas maquininhas aqui, outras ali. Ao final fica aquele buracão, aquela terra nua, escura, os rios poluídos, assoreados.
Ainda assim, a MMX prossegue no seu caminho inexorável de colocar a Serra do Espinhaço no rumo do desaparecimento, com o engodo de que seu moderno mineroduto é menos poluente.
No início deste mês conseguiu do Ibama a liberação da licença de instalação (LI) para a abertura do canteiro de obras do pátio de armazenamento de tubos e o acesso à estação de bombas do mineroduto. Esta carta branca do Ibama permite que a MMX Minas/Rio deslanche a construção do mineroduto, o monstrengo que vai levar o minério de ferro do coração de Conceição do Mato Dentro e mais a água do Rio do Peixe até o Rio de Janeiro. Agora só falta a licença ambiental, que é concedida pelos órgãos do Secretaria de Meio Ambiente.
E se depender desses, a conjugação dos astros continuará favorável à MMX. Demonstrando que o empreendimento é prioridade do governo mineiro, antes mesmo das licenças concedidas, o governador baixou um decreto no inicinho de março, obrigando, vejam bem que mimo, obrigando mais de 700 proprietários ao longo dos municípios por onde passará o minhocão (20 e poucas cidades) a darem à MMX o direito de passar com o tal por suas terras, mediante indenização (o decreto está lá no Minas Gerais de 3 ou 4 de março).
A negociação com os proprietários já corre há pelo menos nove meses e de acordo com a empresa, pelo menos 80% deles já concordaram com os termos. Há controvérsias e é preciso saber o que pensam os outros 20%.
Para quem não sabe, o mineroduto da MMX é uma parte do empreendimento, embora quase sempre tenha sido o principal foco da questão. Vai transportar 26 milhões de toneladas de pelets por ano por mais de 500 quilômetros até o norte fluminense (Porto de Açu, em São João).
O mais grave é a extração do minério em Conceição. Região de belíssimas paisagens, cachoeiras paradisíacas, pode virar uma nova Itabirito, ou uma nova Serra do Curral, ou a Serra de Igarapé, exemplos estão aí à vontade.
O mais grave é que o minério para correr pelo mineroduto, precisa de água, de muita água, que será tirada do Rio do Peixe, perto de 2.500 metros cúbicos por hora, ou 3,15% do volume total da vazão do rio, segundo estudos apresentados à Secretaria de Meio Ambiente.
A MMX vai pagar por esta água?
Daí ter razão a professora Dorinha Alvarenga que instigou dirigentes do Meta 2010: como pensar em salvar um rio agora e deixar que outros morram?

Vejam o clipe "Dança", no youtube http://www.youtube.com/watch?v=aDzokgVV_Bo

terça-feira, 25 de março de 2008

O tsunami da torcida atleticana

Os 100 anos do Atlético podem ser ditos também como os 100 descasos do clube com a vizinhança de sua sede. Os 100 problemas causados pelas comemorações. Os 100 abusos da torcida nas vizinhanças de Lourdes e Savassi e por aí afora.
Um dia depois do início das comemorações, que temerosamente devem prosseguir hoje, a avenida Olegário Maciel amanhece como depois de um tsunami. Um furacão Katrina passou por lá e hoje pela manhã era só devastação: toneladas de lixo, vidros quebrados, garrafas espatifadas por toda a rua, jardins dos prédios empestiados de garrafas, copos, guardanapos, restos de comida. E vômitos.
Este é o saldo da festa que arrastou milhares de torcedores para as imediações da sede do Atlético, em um bairro nobre e estritamente residencial de Belo Horizonte.
E quem responde pelos estragos?
E vitórias mesmo.... ( epa! esqueci o Tupi!)


O Tsunami II

Gente que morava há mais de cinco quilômetros da sede escutou a barulheira infernal. Uma manada de atleticanos gritando e cantando enlouquecidos. Um foguetório de deixar alucinada a cachorrada do bairro (sabiam que cachorro tem o ouvido muito sensível e por isso, enlouquece com o barulho?). E fumaça de tampar o céu, depois dos fogos. E um funk de dar medo. E garrafa voando pra tudo quanto é lado. E palavrões, apupos, provocações.
E nós, moradores, atleticanos ou não, acuados dentro de casa, com a avenida e ruas vizinhas totalmente fechadas ao trânsito, numa incompreensível apropriação do público pelo privado (as ruas, pelo Atlético).
O mais engraçado é que poucos dias atrás, um vereador foi multado porque fez uma festa de aniversário na avenida Américo Vespúcio. Claro, ele é político, o alvo preferido de poderes constituídos.
Mas o Atlético se apropriar do bairro de Lourdes e Savassi e Praça Sete, emporcalhar vias públicas, deslocar três guarnições policiais, cinco viaturas e um ônibus da PM não é. E no dia seguinte, ainda demandar uma equipe extra de garis para varrer a rua, só lá no final da tarde.
Estranhos poderes estes que permitem tal desrespeito do direito de ir e vir do cidadão que paga seu imposto ( e caro, já que o IPTU de Lourdes é o mais alto de Belo Horizonte), para dar a um time de futebol, adorado ou não, patrimônio da cidade, do Estado, ou o que for, todo o espaço possível.
Mas vitórias.... (quem sabe agora contratando o Petkovic).

Tsunami III

Bem agora que desabafei um pouco, vamos aos fatos, isentamente. O Atlético paga à prefeitura pelo uso da equipe extra de garis? Paga à PM pelo policiamento excepcionalmente reforçado nestes dias? Paga aos vizinhos pelas depredações em jardins e grades?
O Atlético tem alvará para fazer uma festa na rua e cercar duas pistas de uma avenida crucial para o trânsito de Belo Horizonte, em plena segunda-feira e mais ruas vizinhas, como Aimorés, Bernardo Guimarães, Rio Grande do Sul, Santa Catarina?
Não, não, não, não.
Como também não dá a mínima para a vizinhança e nem mesmo para os torcedores (que dia mesmo eles fizeram uma passeata contra a diretoria?).
Soluções
Por que não fazer a comemoração no Mineirão, num sábado, ou num domingo, organizada, com um presente aos atleticanos, tipo uma vitoriazinha de vez em quando?
Ai que saudade do time que tinha Reinaldo, Éder....

segunda-feira, 24 de março de 2008

Tibet e Nepal

De repente estes dois países que a gente só conhece de fotos maravilhosas entraram para o noticiário mundial. E com inusitadas explosões de violência.
Ambos, que nos remetiam sempre à idéia de relaxamento, paz, tranquilidade, imutabilidade, estão agora nos noticiários.
O primeiro, pelas revoltas populares de rua contra o regime da China, que há mais de 40 anos escraviza aquele país, perdido na Cordilheira do Humalaia, eternamente gelado, e em contraposição, eternamente com um povo de vestes coloridíssimas.
E o segundo, que a gente só via em fotos, também dá sinais de mudança no comportamento de sua população. Dia destes, uma mulher amarrou seu marido em praça pública, para expô-lo aos olhares de todos os curiosos. É que ela se cansou dos porres do homem e resolveu dar-lhe uma lição.
Sem entrar no mérito da revolta tibetana - inteiramente justificável-, ou de sua forma - ainda que estranhamenteoposta à fama de seu povo -, me pergunto o que está mudando por lá.
Será que a idéia de "zen" que associamos imediatamente aos monges budistas, ao povo milenarmente pacífico, terá de mudar?
Não estou criticando nada, apenas tenho medo de perder mais uma referência sobre as especificidades de culturas quase místicas para nós ocidentais, ante a globalização da violência, seja em forma de conflitos sociais ou domésticos.

terça-feira, 18 de março de 2008

Rodoviária no Calafate: o conto do vigário

Em uma reunião da Comissão de Defesa do Consumidor da Assembléia hoje, para discutir a transferência da rodoviária para o bairro Calafate, região Oeste de Belo Horizonte, ouvi coisas de arrepiar os cabelos.
Há um consenso entre os deputados participantes, sobretudo Alencar da Silveira Jr. e Délio Malheiros, de que o monstrengo nao sai do papel. Segundo Alencar, o projeto é só para a prefeitura ganhar dinheiro e que este é um debate de mais de 16 anos. (Especulação imobiliária?). Alencar prometeu, inclusive, abandonar a vida pública, caso o projeto saia.
Segundo Délio, o projeto técnico é completamente frágil juridicamente. E ele sabe do que está falando, pois foi do Procon por anos e anos. Ele questionou as falhas: ausência de uma lei para regulamentar a questão, o que hoje é feito por decreto; e o alto investimento que empresários particulares teriam de fazer com desapropriações e outros custos, sem garantia de retorno.
Ou seja: que havia interesses por trás, a gente desconfiava. Mas que eles pudessem ser expostos assim, publicamente, é de deixar qualquer cidadão engasgado.
Lembram-se que já escrevi sobre a rodoviária aqui, e que vendi meu apartamento no Prado, às pressas. Meu irmão ainda está lá, no Padre Eustáquio. Resolveu pagar para ver.
Os argumentos contra a construção naquele local todo mundo sabe. Capacidade de trânsito esgotada, aumento da violência, terrenos particulares.
O Estado doou para a prefeitura um terreno que só era dele parcialmente, num típico caso de "fazer reverência com o chapéu alheio".
O "cidadão engasgado" veio na fala do vice-presidente da Associação dos Moradores do Prado e Calafate, professor Renato de Leme. Ele disse que a associação vai lotar o Judiciário de ações populares contra a construção, porque o decreto da nova rodoviário está cheio de irregularidades. E fez um discurso aplaudidíssimo por moradores, contra a inércia das instituições e a negligência dos políticos para com os eleitores.
Consultor da Fundação Getúlio Vargas para estratégias de negócios, ele garantiu que não há empresário "burro", que queira investir num projeto como esse.
Vivendo e aprendendo.